Monday, August 08, 2005

Estou aqui esperando o Senhor

Estou a esperar o Senhor.
Disseram-me que daqui a 5 minutos ele passará
por esse caminho.
Estou sentada e espero.
Espero com as mãos cruzadas no colo,
como antes de mim fizeram minha mãe
e todas as mães do mundo.
Mas minha mãe não esperava o Senhor,
esperava seu homem.
Que era, ao seu modo, o Senhor dela.
Eu não tenho homem.
Eu já tive muitos homens,
mas nenhum deles foi meu senhor.
Estou sentada e espero.
O calor queima-me as pernas
(quem mandou vir esperar o Senhor
com essas saias tão curtas?)
Sinto uma gota de suor que brota da minha nuca
e escorre gravidade abaixo
até chegar ao meio das costas
e some.
Estou sentada e espero.
Doem-me os pés, que noto agora
sujos de poeira
(achei que fariam boa figura
sandálias de couro, tão franciscanas)
Doem-me os pés e ainda por cima estão
sujos.
De repente canso-me de esperar,
sozinha debaixo do sol.
Uma estranha idéia ocorre-me
súbita
como a gota de suor que há pouco
brotou em minha nuca e
escorreu pele das costas abaixo:
E se o Senhor já estiver aqui?
Se ele for este pedaço morto de árvore
no qual estou sentada?
Se ele for a poeira da estrada
nas sandálias
ou
aquela pedra do outro lado, jogada
dentro da vala, perto da bosta de vaca?
O mundo é cheio de mistérios e o Senhor
pode já ter vindo.
Aliás, pode até mesmo ter-se
cansado e ido embora.
Fiquei eu.


(Saint-Clair)

Tuesday, July 05, 2005

Ideograma

O Imperador Amarelo amava tanto os pássaros que erigiu para eles um Jardim. Em seu amor, esqueceu-se das esposas, dos generais e dos filhos do povo. Pressentindo a morte, deixou instruções: que fizessem de seu corpo pó a servir de alimento às aves. Hoje o Imperador voa pelo céu luminoso em cada asa.

Saint-Clair

Sunday, June 12, 2005

REENCONTRO

O ato de servirmos aos deveres do mundo nos assoberba,
Tanta lucidez se embriagando de risos e defesas inúteis
E o dispêndio extático no universo jorrado – ainda medidos
A margem do rio que tece o limite de transgredi-lo?
Eis o que impõe tão longos fardos a existência!
Eis a rebeldia, nosso embaraço, nossas palavras,
Nossos olhos atentos escutando berros e urros - mundos
Um silêncio ainda antes da aurora
na distância dos dias para sabê-los válidos.
A dança de um deus bramindo pelo corpo
de um mistério nos lançando para além do corpus
dessa agitada e fogosa intuição impulsiva
e um reencontro com a linguagem,
E romper a linguagem,
E reencontrar a Vida
Lucidez em cega luminância
de passos mais vigorosos e seguros.
Há portas abertas,
Secretas?
Há versos íntimos,
Reflexos?
Ah, tanto silêncio de alma a dois!
Tanto domínio que se quer dos sentidos,
desvio de discórdia no íntimo falível
Um corpo mais elevado – querendo criar
E tantas palavras, essas metáforas, subterfúgios!

A madureza vibra pelo sentido da terra
O reencontro é uma tocha iluminando caminhos para além de nós,
Aprenderíamos a não nos iludirmos tanto
Se lêssemos o papel da bala antes de mastigá-la
Mas isso ainda é uma imagem, um pretexto poético,
E poesia é apenas aclarar
a falsa beleza simples da linguagem,
num silêncio indefinível
que qualquer verbo ainda reduz, intensifica.


André Marcos

Friday, June 10, 2005

Bio

Numa perspectiva budista, não acredito que haja um "eu" verdadeiro. Quando penso nesse eu ilusório, jamais penso nele como "homem", "homossexual", "brasileiro", "inteligente", "universitário", "branco", "gordo". Mas confesso que penso em mim como "um escritor". Pequena veleidade.

Saint-Clair

Wednesday, June 08, 2005

Resposta a Leminski

Eu,
se amei em cheio,
..........meio amei-o
meio não há meio

(Luiz Fernando Barros)