Estou aqui esperando o Senhor
Estou a esperar o Senhor.
Disseram-me que daqui a 5 minutos ele passará
por esse caminho.
Estou sentada e espero.
Espero com as mãos cruzadas no colo,
como antes de mim fizeram minha mãe
e todas as mães do mundo.
Mas minha mãe não esperava o Senhor,
esperava seu homem.
Que era, ao seu modo, o Senhor dela.
Eu não tenho homem.
Eu já tive muitos homens,
mas nenhum deles foi meu senhor.
Estou sentada e espero.
O calor queima-me as pernas
(quem mandou vir esperar o Senhor
com essas saias tão curtas?)
Sinto uma gota de suor que brota da minha nuca
e escorre gravidade abaixo
até chegar ao meio das costas
e some.
Estou sentada e espero.
Doem-me os pés, que noto agora
sujos de poeira
(achei que fariam boa figura
sandálias de couro, tão franciscanas)
Doem-me os pés e ainda por cima estão
sujos.
De repente canso-me de esperar,
sozinha debaixo do sol.
Uma estranha idéia ocorre-me
súbita
como a gota de suor que há pouco
brotou em minha nuca e
escorreu pele das costas abaixo:
E se o Senhor já estiver aqui?
Se ele for este pedaço morto de árvore
no qual estou sentada?
Se ele for a poeira da estrada
nas sandálias
ou
aquela pedra do outro lado, jogada
dentro da vala, perto da bosta de vaca?
O mundo é cheio de mistérios e o Senhor
pode já ter vindo.
Aliás, pode até mesmo ter-se
cansado e ido embora.
Fiquei eu.
(Saint-Clair)
